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Sábado, Janeiro 31, 2009
ALMA
(Gabriela Maria)
O que eu vivo agora é uma fase intensa, de pura paixão. Há uma semana tenho vivido disso, e apenas disso. E um medo habitual, enorme! Não sei lidar com o amor, exatamente por querê-lo com tanta fome. O amor me causa uma expansão de alma que a impede de caber em meu próprio corpo. Hoje minha alma é alaranjada.
E se ele mesmo custa a caber aqui, como podem caber outras coisas, outros planos, outras preocupações, aspirações? Enquanto o vivo, vivo dele. Por isso mesmo teme não durar; teme não conseguir. Não há espaço pra respirar, e quanto mais cresce, menos respira. Não há espaço para o resto da vida.
Então o único jeito é mergulhar nele, beber dessa fonte, enquanto ela jorra reciprocidade. O único jeito é tornar concreta, intensa, ainda que breve e medrosa, tanta emoção. Não que ela, a emoção, vá passar rápido. Mas as pessoas, cruelmente, passam. Talvez porque elas não suportem tamanha voracidade. Talvez porque nem eu consiga suportar. É exaustiva demais pra ser mantida por muito tempo.
Às vezes penso mesmo é que tudo o que vou conseguir viver são momentos. Uns dias, uns meses, no máximo. Como um urso polar que, por nicho, depois de se alimentar em excesso, necessita dormir – não uma hibernação, mas uma semi-sonolência. Alimento-me, também em excesso, de amor e de tudo o que ele me provoca; depois minha alma pede um tempo, um tempo pra vazar – não completamente – pra respirar, pra digerir e abrir espaço ao resto do mundo, até que a fome volte e seja novamente, ou não, saciada.
Quando depois da partida da pessoa amada, minha alma estremece, chora, semi-vaza, e o mundo, enfim, entra pra fazê-la endurecer. Ela precisa endurecer. Porque se culpa por tanta profusão. Por muito tempo recusará mais alimento. Por muito tempo recusará a plenitude fluida e fugaz, que ela só alcança quando se entope de amor. E, mesmo assim, a cada novo banquete, ela ainda teima acreditar que é a última vez; e que desta vez vai conseguir se conter, criar e respeitar membranas, não invadir tanto espaço.
Permanecem em mim as lembranças e nuances de todo amor que passou, cada um de uma cor, com sua propriedade. E se este passar, ficará a tristeza de não possuir, perene, uma alma de cor inteira. Mesmo assim tentarei fazer consolo da dureza forjada e colorida que me move ao resto do mundo e permite a ele mover-se dentro de mim. No entanto, prevalece, terna, a mesma esperança, a mania pueril de acreditar que um dia serei alma conciliadora: plena, monocromática, fluida e cheia de mundo. E que esse dia, afinal, vai durar pra sempre.
Bem que minha alma poderia definitivamente se alaranjar... e bem que esse dia poderia ser hoje...
Publicado por Gabriela Maria às 5:33 PM
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
AINDA NÃO
(Gabriela Maria)
Você pediu que eu me lembrasse:
sorrisse...
sonhasse...
Respondi que me recusava a viver disso
apenas em sonhos e sorrisos.
Adeus.
E desde aquele dia nem um sorriso vazou.
Mas no último sonho eu me lembrei
de tudo o que ainda não aconteceu.
Acordei sorrindo você em mim.
Publicado por Gabriela Maria às 2:24 PM
Sábado, Janeiro 10, 2009
DIGITAIS-(DI)AMANTES
(Gabriela Maria)
Pra quê essa sua armadura de vidro? Do lado de cá eu vejo tudo o que você tenta, compulsiva e inutilmente, esconder de mim. Pra quê tanta sutileza agressiva a me refletir? Calma... respire comigo devagar, amor, que é pra não embassar esta frágil fronteira de mentiras. Mas quebrá-la não resolveria; as pontas nas pontas dos nossos dedos sim – trincarão o vidro. Chega de medo, barulho, cortes e cacos.
Publicado por Gabriela Maria às 12:52 AM
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