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{Quarta-feira, Novembro 19, 2008}

 


DA REJEIÇÃO
(Gabriela Maria)

É quando alguém se recusa
a abrir-nos a porta
ao querermos tanto entrar.

É quando dói.

É quando a gente se recusa
a abrir a porta a alguém
que definitivamente merece entrar.

É quando dói
fazendo-nos desejar
batendo, todas as portas
a nós trancadas.

Publicado por Gabriela Maria às 9:43 PM

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{Quinta-feira, Novembro 13, 2008}

 


DE ESCREVER CERTO POR LINHAS RETAS
(Gabriela Maria)

Tudo o que Camila queria era esquecer o amor fugaz, que fez dela a própria euforia durante aqueles cinco dias macios, contados. Contados também os dois meses posteriores que a separaram do definitivo ponto final. Como produto, uma dor vermelha, asfixiante, aguda, já se arrastava por mais insuportáveis dois meses.

Trazido por estes mesmos dois meses, um branco brando par de braços quentes acolheu Camila que, nele, em súplicas, se agarrou forte, implacavelmente. A dor vermelha foi, amparada, desaparecendo... mas ficou por dentro um lago amarelo, profundo de solidão; tanto, tanto medo de se afogar nele! E durante curto tempo – para ela; provavelmente longo e exaustivo para tais braços – tudo o que Camila pôde foi demandar socorro.

Os braços. Brancos, brandos braços. Abraçaram o desespero da moça até se enfraquecerem. Em silêncio ensurdecedor, eles perdiam gradativamente a força e deixavam Camila em fúria inflamável, quase insana. Eles tinham de suportar! Por que se afrouxavam daquela maneira, se ela continuava segurando forte? Tão fracos e tão furiosa, abruptamente soltaram-se.

Camila inevitavelmente se deixou afundar no lago amarelo. E, de lá, por extensos tantos meses, bradou a culpa do maldito par de braços pela indiferença, pela fraqueza, pelo silêncio.

Hoje, plena de saudável respiração, ela se banha nesse mesmo lago íntimo algumas vezes – sem o desespero do afogamento. E tem pedido, em sincero e afável silêncio, perdão. A si mesma e aos brancos solícitos brandos braços por tê-los tão equivocadamente julgado.

Publicado por Gabriela Maria às 12:33 AM

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{Sábado, Novembro 08, 2008}

 


REPARA
(Gabriela Maria)

E, tantas vezes,
em seus relacionamentos,
com peneiras tapou sóis.

Hoje reflete indigesto
a respeito de sóis e peneiras
perguntando-se quem é qual.

Publicado por Gabriela Maria às 8:38 PM

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{Domingo, Novembro 02, 2008}

 


ELISA
(Gabriela Maria)

E mais pessoas verdadeiramente importantes tiveram de, por qualquer motivo – que nunca é um motivo qualquer -, partir da sua vida. Mas ela não vai novamente cometer aquele erro; não vai guardar num baú as sementes deixadas por esses emigrantes e ficar contemplando com sofrimento as flores e os frutos que poderiam ter nascido. Ela vai cultivar em si com carinho, cada semente, e permitir que floresça. E vai regar, todos os dias, a beleza infinita de seu jardim de ausências.

Publicado por Gabriela Maria às 9:10 PM

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{Segunda-feira, Outubro 27, 2008}

 


AUTO-RETRATO
(Gabriela Maria)

Sou o que sinto e,
enfim, quero sê-lo.

Publicado por Gabriela Maria às 12:31 PM

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{Sábado, Outubro 25, 2008}

 


DA INSISTENTE EXPRESSÃO
(Gabriela Maria)

Não tenho falado especificamente apenas de mim ou de você. Nem do filme ou da poesia e das músicas que me comoveram. Mas tudo isso confluiu em minhas catarses e na inspiração. Portanto não tente entender a que(m) me refiro em cada frase. A intenção é maior, traduzida na expressão inteira – não em suas partes.

Escrevo para você, anônimo, que lê, como escrevo para mim mesma e especialmente para aqueles que amo, porque é isto o que eu desejo a todos – que vejam, sem menosprezo, a própria beleza – interna e externa. É o que tenho, aos poucos, aprendido.

Sobre perdoar e perdoar a si mesmo; sobre sentir, não fugir - a gente se recusa muito a sentir as coisas. Temos medo dos sentimentos bons, porque achamo-los efêmeros demais. Tememos os ruins por causa do sofrimento que provocam. Tem gente que foge através das drogas, tem gente que dorme o dia todo, tem gente que se concentra de maneira exaustiva no trabalho ou nos estudos, enquanto outros consomem, compulsivamente.

Eu nunca tinha encontrado um jeito de tentar me amar; achava que era uma questão de gosto – eu não gosto de jiló e pronto; não gosto de mim e pronto... talvez eu não faça meu tipo, sei lá -, mas a verdade é que eu me recusava a sentir, por não gostar dos meus sentimentos.

E de repente, talvez mais que de repente, descobri que a minha chave pode ser essa – talvez esta chave possa abrir outras portas: sentir, parar de fugir dos sentimentos bons e dos ruins; amar o que sinto e amar-me, porque sou tudo o que sinto. Porque sentir é tão humano, tão bonito. E eu sinto tanto...

Ontem, numa entrevista, Rubem Alves disse: "ostra feliz não produz pérolas" – e explicou: a ostra só produz a pérola, como o corpo produz um tumor, pra se defender da areia que a irrita. Partindo dessa idéia, ninguém é obrigado a ser feliz, mas seria bom que todos vissem beleza inclusive nos sofrimentos. Porque se a areia não importuna a ostra, esta permanece vazia.

A depressão, a excessiva tristeza, o sofrimento que, na maioria das vezes, eu nem sei direito de onde vem, já me mostraram tantas pérolas! E só agora eu começo a percebê-las.

Tenho ainda muito a aprender e melhorar. Sempre temos. Mas sei que estou encontrando e me concentrando em meu caminho.

Como disse o meu pai: “se você acha que isso é um limão, faça uma limonada. Se você acha que é um monte de bosta, faça dele esterco e plante uma flor” - foi a coisa mais bonita e gentil que ele me disse nos últimos dias; colocou minhas armas no chão; fez-me perceber como eu sou tantas vezes injusta com ele por não entender nas entrelinhas, nem em linhas retas conseguir demonstrar, o grande amor recíproco entre nós dois.

Então leia novamente. Leia mil vezes, se preciso, e pense sobre isto. Porque tudo o que mais desejo agora é que este texto ajude alguém. Independente de quem seja, sentir-me-ei bem sucedida.

Fiz o propósito comigo mesma e com minha família de que tiraria este tempo para me recuperar e nunca mais recair nessa depressão. Tenho certeza de que estou conseguindo. Estou sentindo tudo o que tenho para sentir - mas a depressão, essa não a sinto mais.

Por isso mais uma vez escrevo, insisto: é também minha necessidade urgente de me registrar saindo daquele buraco. Se um dia novamente eu cair, pois, terei aqui a minha própria receita para voltar ao topo. Porque quando estamos no fundo do poço, sozinhos não enxergamos nada além do chão. E hoje, sozinha consigo ver o céu.

Publicado por Gabriela Maria às 5:13 AM

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{Sexta-feira, Outubro 24, 2008}

 


DESTE INSTANTE
(Gabriela Maria)

Há em mim um grande medo
de encontrar, por perto,
a pessoa que entende
- e, comigo, se comove -
com tudo o que vejo.

Um grande medo de que,
mesmo ao lado dela,
este sentimento de solidão
insista ficar.

Publicado por Gabriela Maria às 3:17 AM

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{Quarta-feira, Outubro 22, 2008}

 


DA CEGUEIRA À EXPRESSÃO
(Gabriela Maria)

Por favor, não fuja! Você não tem por quê. Dê uma boa olhada à sua volta - às vezes para isso é preciso que se feche os olhos. Feche os seus. E veja: veja tudo o que há no mundo; veja quantos sonhos e paixões você tem deixado pra trás; a quantas coisas, em que você tanto acredita, tem renunciado - por que(m) você as renuncia, se acreditamos para viver, e vice-versa?

Veja todas as suas possibilidades; veja, sem menosprezo, quem é você, e como é bonito. Quantas pessoas o amam, às vezes meio sem jeito, mas amam tanto, tanto, que falham, tentando acertar - elas o amam incomensuravelmente e fazem o que acreditam ser certo e melhor para ver você feliz - fazem tudo o que podem. Por que não perdoá-las? Elas amam porque você existe; porque é tão bonito; e porque, simplesmente, você é. E veja quantas pessoas você tanto ama – sem porquês – e, mesmo assim, dando o seu melhor por acreditar que vai funcionar, você falha com elas. Sim, você falha com as pessoas que mais ama e não se perdoa por isso. Por que não se perdoar, se você faz tudo o que pode?

E sinta, porque vivemos para sentir, e vice-versa. Permita-se. Sinta tudo isso que fer(v)e aí dentro. Permita-se amor, ódio, alegria, tristeza, raiva, gratidão, desejo, asco, vazio, compressão, angústia, serenidade, medo, coragem, carência, satisfação. Sinta e ame profundamente o que você sente. Sinta-se – ame-se. Porque é você aí dentro – você é aí dentro. Então não fuja, fique. Vire-se do avesso, com calma... procure-se. Encontre-se, pois. Porque o que realmente existe de nós transcende, por sentimentos, todos os sentidos.

Então respire fundo... abra os olhos. E, definitivamente, veja! O mundo é belo e você também é. Você pode e sabe que pode. E você quer. Então escolha como expressar isso – sorrir ou chorar, não importa. Expresse a todo momento o que de belo você percebeu. E perceba, a partir de agora, quanta beleza você sempre expressou.

Publicado por Gabriela Maria às 9:12 PM

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{Domingo, Outubro 19, 2008}

 


ORAÇÃO PELO “AMOR LÍQÜIDO”
(Gabriela Maria)

Pai, apiede-se dos indivíduos deste mundo moderno
e faça-nos parecer menos inescrutáveis,
menos intransponíveis as distâncias entre nós
e mais duradouras nossas interações.

Porque, todas nossas solidões e carências,
já consumimos, compulsivamente, e,
nem assim, elas nos satisfazem
- elas gritam, na madrugada, desesperadas, aos nossos ouvidos exaustos.

Pai, torne-as, pois, mais suportáveis.
Se possível, disponha divinas amáveis companhias
no trabalho, na arte, em geladeiras, armários, portais de busca, vitrines, prateleiras.

E peça aos anjos que toquem, em harpas e trombetas,
a mais terna e sonora canção de ninar.
Porque precisamos, Pai, literal e urgentemente, dormir em paz.

Publicado por Gabriela Maria às 8:53 AM

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{Sábado, Outubro 18, 2008}

 


TUDO
(Gabriela Maria)

Eu tenho escutado desde criança a grande lição: "não dê tudo de uma vez; dê aos poucos; tenha sempre algo novo pra que eles se surpreendam; até Maquiavel disse que o bem se faz em doses homeopáticas". Mas eu insisto. Dou tudo o que de belo tenho hoje - todo o meu sentimento, todas as palavras que não conseguem calar, todos os abraços que não podem se conter, todo o carinho que insiste extravasar. Não tenho o mínimo orgulho - não economizo perdão, nem pedidos de perdão, não escondo a saudade nem o coração moído. E digo que quero, gosto, sonho, acredito, espero, confio, agradeço. Se cada ser humano tem potenciais infinitos, terei ainda, pois, tudo mais a dar amanhã. E mais uma vez darei - um novo tudo; o tudo que cresceu, o tudo que nasceu, o tudo que se renovou. Tudo é sempre diferente, é sempre mais, mas é sempre por enquanto - e, portanto, nunca é tudo.

Hoje, tudo para você.

Publicado por Gabriela Maria às 12:47 AM

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{Sexta-feira, Outubro 17, 2008}

 


DA HIPOCRISIA
(Gabriela Maria)

Ninguém, a princípio,
está a salvo dela.

Porque a coisa mais desafiadora ao homem
é alcançar a própria coerência
entre pensamento, sentimento e ação.

Mas só quer e, talvez possa, se salvar
aquele que tem por causa maior
morrer - com orgulho de ter vivido.

Publicado por Gabriela Maria às 8:49 AM

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{Quinta-feira, Outubro 16, 2008}

 


DA FEIURA
(Gabriela Maria)

- Quanto tempo! Mas sua aparência
piorou demais, rapaz!

Será que o meu olhar
está deturpado pelo desdém?

Como pude?

Publicado por Gabriela Maria às 4:03 PM

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{Quarta-feira, Outubro 15, 2008}

 
TEM SENTIDO?
(Gabriela Maria)

Para os meus filhos
quero cantar entre amarelo-bebê e alaranjado
- assim como Adriana Calcanhotto.

Mas se um dia eu consquistar os palcos
neles sim, minha música será lilás
- cor de rock n' roll orgânico e contido.

Liberdade tem cheiro de pipoca
- de imaginação explodindo moderadamente salgada.

Publicado por Gabriela Maria às 1:27 AM

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{Terça-feira, Outubro 14, 2008}

 


INSIGHT
(Gabriela Maria)

Estou num momento muito lírico, muito mais do que freqüentemente. Há muito tempo eu nao mergulhava assim, de maneira tão passional, em poesia. Agora estou construindo um álbum virtual, ilustrando, informal, algumas poesias dos meus grandes mestres - álbum que, se um dia, completo, seria um possível mosaico de mim. Daqui a pouco meu pai fica bravo. Sabia que ele fica bravo? Meu pai acha que eu me envolvo demais com a literatura; deveras, eu me viro do avesso e começo a acontecer por dentro, e acho que quase só por dentro. Não acontecer por fora, ou acontecer pouco por fora, irrita muito o meu pai. Costuma irritar a mim também, quando não mergulho tão fundo assim na poesia. Penso, então, que a maioria dos outsiders deve acontecer muito mais, e quase exclusivamente, por dentro. Talvez eu sempre tenha tido meus períodos outsider, mas só agora percebi. Como o patinho feio que, só depois de algum - longo - tempo, descobriu ser, na verdade, cisne. =)

Publicado por Gabriela Maria às 8:43 PM

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{Segunda-feira, Outubro 06, 2008}

 


A UM(A) GRANDE MESTRE(A)
(Gabriela Maria)

Quero ainda retribuir a sua existência com aquela maçã. Talvez eu plante um pomar em sua homenagem - ou pelo menos descreva num poema a sinestesia que essa vontade me provoca: a textura da grama, as folhas caindo, o céu azul com algumas nuvens desenhando abraços. E todas as maçãs ali, vermelhas e doces, desejando as mãos de seus alunos a lhe presentear. Por enquanto continuo contemplando a beleza delas, expostas nos caixotes das frutarias.

Publicado por Gabriela Maria às 12:22 PM

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{Domingo, Setembro 28, 2008}

 


SAIBA (Para Rita Apoena)
(Gabriela Maria)

É tão bom ler você:
Ler você na avenida, caminhando.
Ler você deitada na cama, de olhos fechados.
Ler você na sessão de terapia, de coração aberto.
Ler você pra um amigo, traduzindo uns silêncios.
Ler você, companhia, catarse, ânimo.
Ler você, saideira.
Ler você no início
e ler você no final.

Ler você lendo a mim.

Publicado por Gabriela Maria às 12:36 PM

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{Quinta-feira, Setembro 11, 2008}

 


LUIZA
(Gabriela Maria)

Se eu fosse homem
eu quereria ficar velhinho
do seu lado.

Publicado por Gabriela Maria às 9:08 AM

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{Domingo, Agosto 17, 2008}

 


CASQUINHA
(Gabriela Maria)

A dor da minha ferida se alivia
quando adoto a dor da ferida do outro,
e consigo, com ele, sentir o sangue coagular.

Publicado por Gabriela Maria às 10:43 PM

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{Quinta-feira, Agosto 07, 2008}

 


SEDE
(Gabriela Maria)

Ao seu lado eu não quero filmes
nem livros, nem discos, nem cordas
- nada que exclusivise a imaginação.
Ao seu lado não quero simples fantasias.

Eu quero mesmo é viver você.
Agora.

Publicado por Gabriela Maria às 10:37 PM

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{Terça-feira, Julho 29, 2008}

 


POR ENQUANTO
(Gabriela Maria)

Não tira os pés do chão.

Porque meus pés estão sobre os teus,
ainda.

E se fizeres isso agora
eu posso simplesmente cair.

Moço, cuida de nós.

Publicado por Gabriela Maria às 10:52 AM

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{Terça-feira, Julho 22, 2008}

 
ANIVERSÁRIO
(Gabriela Maria)

O meu ideal de festa é convidar todo mundo que já passou pela minha vida.

A primeira professora, as cantineiras da primeira escola, aqueles primeiros coleguinhas que eu nunca mais vi, e os que eu continuo vendo até hoje... a babá que cuidou de mim até os meus quatro anos, as mulheres que ajudaram minha mãe a cuidar da casa, deixar a casa limpinha, e a cuidar de mim e do meu irmão, pra que ela e meu pai fossem tranqüilos para o trabalho... todas as minhas professoras e professores, que deixaram em mim um pedacinho de mundo, de qualquer maneira elaborada - do ensino fundamental, passando pelo ensino médio, até a faculdade... os meninos com quem eu jogava bola na escola, na frente de casa ou no meio daquela rua, mesmo sendo carta-branca - ou café-com-leite, como queira.

Aqueles colegas que viraram a cara pra mim e me deixaram sozinha pra que eu aprendesse que a solidão nem é tão ruim assim quando se aprende a lidar com ela. Outros que riram de mim quando eu não fui ou agi exatamente como esperaram. Aquela senhora, que eu nem conheço, que sorriu pra mim num dia em que eu briguei com a mamãe antes de ir pra escola - tinha tudo pra ser o pior dia do mundo, mas ela sorriu pra mim.

Os meus primos e uma amiguinha, vizinha da vó, que faziam das minhas férias os melhores dias da minha vida... os meus avós, que me deram e até hoje me dão lições de vida, de amor e de enfrentamento, que me contaram e contam as lindas histórias das vidas deles e me fazem sentir a pessoa mais nova do mundo, ainda com tanta coisa pra ver e viver. Os meus tios e tias, especialmente a minha duplamente madrinha, por estarem presentes, pelas festas de família, pela amizade, pela colaboração, pela presença, pela existência.

Os funcionários da escola da minha adolescência, que agüentaram, não me pergunte como, as minhas crises de rebeldia sem causa... aquele leiteiro que passava de carroça toda manhã em frente a minha antiga casa, vendendo sempre dois litros de leite. Às vezes ele até passeava de carroça comigo e com meu irmão - era o máximo passear de carroça.

Os rapazes por quem eu me apaixonei e fizeram de alguns dias os mais especiais e inesquecíveis. Aquele do primeiro beijo, que nem sabe que foi o do primeiro beijo... o primeiro namorado... aquele outro que me fez chorar minha vida quando não se esforçou pra que desse certo... aquele que foi embora, obedecendo às imposições do tempo e da distância... aquele que está sempre por aqui, derretendo meu coração, mesmo sem acreditar que merece. Aquele amigão de infância que nunca desconfiou de nada e talvez nunca saiba que foi ele quem me ensinou o mais puro e refinado amor.

Uma amiga que eu fiz lá na infância que, do jeito dela, me ajudou a enfrentar aquela solidão que os outros coleguinhas impuseram. Os moleques da adolescência que se reuniam comigo lá em casa pra estudar, lanchar, falar tudo e nada e compartilhar comigo a alegria de estar bem acompanhada. As amigas que me ouviram e filosofaram comigo as coisas mais importantes de cada fase por que passei até hoje. Todos que se preocuparam com as minhas importantes crises de depressão, mesmo achando que não pudessem fazer muita coisa. E, do jeito deles, fizeram.

Aqueles amigos que me mostraram boa música e despertaram em mim a paixão por ela. Especialmente aquela que passava grandes tardes de sábado cantando e tocando violão e teclado e me ensinando um pouco de tudo o que eu ainda tenho vontade de aprender. Ela que descobriu comigo a sinestesia, a sensibilidade e a possibilidade de ser mais feliz, mesmo diante de algumas peças que a vida insiste em pregar.

Os ex-alunos, ex-colegas e ex-patroa, que me ensinaram e viveram comigo a experiência do primeiro emprego.

A psicóloga que me acompanhou durante dois anos, me mostrando quem eu realmente sou e o que eu posso ser. Os médicos que cuidaram de mim quando minha saúde não estava lá grande coisa.

As amigas e amigos da faculdade que têm compartilhado comigo os grandes momentos da difícil tarefa de crescer. E, claro, aqueles estudantes que, durante os breves tempos do cursinho, fizeram a alegria dos meus dias - alguns deles presentes até hoje. E a linda família que construímos dentro do pensionato em que morei nessa época.

Aquela melhor amiga que, apesar do tempo e da distância, continua sempre comigo, mesmo que a gente esqueça os aniversários uma da outra de vez em quando. Essa amiga que comigo fala de poesia, de MPB, de sexo, solidão, alegria, tristeza. Ela que tem liberdade de brigar comigo às vezes, que nem mãe mesmo, e vice-versa. E aquele outro que anda conquistando o mundo, fazendo um elo lindo entre o nosso mundo mineirinho e o mundo metropolitano.

Os amigos das farras e confidências, daquele certo porre, que cuidaram e cuidam de mim e me ensinam, todos os dias, a alegria de viver.

Ah! E os pais de todos esses amigos que, tantas vezes, me adotaram como filha, me receberam em suas casas e me fizeram sentir visita ilustre.

Os amigos da internet, que talvez eu nunca chegue a conhecer pessoalmente, mas que me fizeram companhia em momentos incrivelmente importantes.

E os meus queridos poetas, amigos, companheiros, autores das perguntas e das respostas mais pertinentes e oportunas de que fiz, faço e sempre farei uso. Eles que tantas vezes salvaram minha vida, equilibraram minha emoção e me colocaram de volta nos eixos.

A moça da banca de revista da universidade, que sempre conversa comigo e me avisa quando chega alguma revista nova promocional. Que sorriso e simpatia bonitos ela tem. Também os funcionários do restaurante da universidade, que sempre me atendem com um sorriso, inclusive aquela senhora que, certa vez, não resisti e abracei. Os funcionários no xerox, que estão sempre prontos e fazem o trabalho deles pra gente com a maior boa vontade e eficiência e, nas horinhas de folga, até batem um papinho agradável.

Os motoristas e cobradores dos ônibus que eu tenho de pegar todo dia pra ir à universidade. Talvez eles não tenham idéia de como aquele "bom dia” matinal faz toda a diferença. A vizinha do marmitex, que salva o nosso almoço todo dia em que todo mundo chega em cima da hora, salivando de fome. O pessoal das padarias lá perto de casa, que sempre atende a mim e à minha família com pão quentinho, bolo de coco e bom humor, e até sabem os nossos nomes.

E, finalmente, a minha família, por me amar e me aceitar incondicionalmente, por saber tudo o que só uma família sabe que acontece numa família. E, claro, a minha segunda família, aquela de olhinhos puxados, que esteve presente desde a minha infância e, hoje, apesar da distância e de, às vezes, algum tempo de ausência física, continua deixando em mim os maiores ensinamentos de fraternidade, cooperação e boa vontade de que posso me lembrar.

É essa a festa dos meus sonhos, a festa da minha vida. Pode ser hoje, amanhã ou depois. Pode ser no meu último dia. Ou no dia posterior. São essas as lembranças, as pessoas e os momentos que quero e vou guardar pra sempre comigo. Na memória e no coração.

Obrigada, Deus.

Publicado por Gabriela Maria às 2:25 PM

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{Domingo, Julho 13, 2008}

 


SALVEM SÍSIFO
(Gabriela Maria)

O que quer que seja,
tenha fin(ai)s, para que valha a pena.

Publicado por Gabriela Maria às 3:41 PM

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{Domingo, Maio 04, 2008}

 


DAS ESCOLHAS
(Gabriela Maria)

Ah! O tempo...
Essa louca montanha russa
a desafiar nossa inércia.

E a eternidade:
esta fábrica de náuseas e medo
- belo parque de diversões.

Publicado por Gabriela Maria às 11:53 PM

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{Quarta-feira, Abril 23, 2008}

 


PERFEITOS, PERFEITOS, HUMANOS À PARTE.
(Gabriela Maria)

Cresci ouvindo que amizade é feita de conveniência. Eu nunca quis concordar.

Meus amigos sempre significaram demais e o meu instinto de lealdade sempre me disse pra confiar incondicionalmente, perdoar compreensivelmente, disponibilizar-me maximamente. E foi assim que, repetidas vezes, eu quebrei a cara: uma discordância de idéias aqui, uma batida de valores ali, uma decepção relativa a atitudes acolá. Mesmo assim, de novo eu perdoei, confiei e me disponibilizei. Afinal, ninguém é perfeito.

Não obstante, eu não sou perfeita. O que eu penso ser certo, pode não o ser pra você. E não raras vezes eu também discordei, bati de frente ou decepcionei. A diferença é que o limiar de tolerância do lado de lá é quase sempre nulo - as pessoas não têm mais o hábito de, de novo, perdoar, voltar a confiar, se disponibilizar. A maioria delas pensa um mundo como eu cresci ouvindo - de conveniências. São e, com razão, pragmáticas, no sentido mais fiel da palavra. Não só nas amizades, mas em todos os relacionamentos humanos - a ordem é tolerar apenas pai e mãe, se é que ainda há ordem.

E é assim que eu tenho quase me transformado numa mônada: aprendi a ter medo de confiar no outro; medo de me expressar, de agir como acredito, porque no mundo alheio não há segunda chance, nem perdão; aprendi a ceder menos, porque a maioria das pessoas não cede nunca e, insistindo em ceder, eu posso acabar me perdendo. Aprendi que a arte moderna é o individualismo; é não depender da opinião, da ajuda ou da gentileza do outro. Aprendi que não posso errar nunca, porque eu sou descartável. E você também é. Por isso, a duras penas, tenho aprendido também a descartar.

E já estou aprendendo até mesmo a fazer fotossíntese.

"Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca..."

Publicado por Gabriela Maria às 7:24 PM

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{Segunda-feira, Abril 21, 2008}

 
"É evidende a escassez de pessoas que se disporiam a ser revolucionários: do tipo de pessoas que articulam o desejo de mudar seus planos individuais como projeto para mudar a ordem da sociedade. (...) Hoje os padrões e configurações são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes. (...) Os poderes se liqüefazem e a responsabilidade pelo fracasso cai principalmente sobre os ombros individuais. (...) O longo esforço para acelerar a velocidade do movimento chegou a seu 'limite natural'. (...) Agora é o menor, mais leve e mais potátil que significa melhoria e 'progresso'.(...) É a velocidade atordoante da circulação, da reciclagem, do envelhecimento, do entulho e da substituição que traz lucro. (...) Os da base da pirâmide lutam - contra todas as chances desesperadamente para fazer suas frágeis, mesquinhas e transitórias posses durarem mais tempo. (...) A realidade é a teimosa indiferença do mundo em relação à minha intenção, a relutância do mundo em se submeter à minha vontade."

(Modernidade Líquida - Zygmunt Bauman)
Publicado por Gabriela Maria às 7:10 PM

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Pintura por Silas Mendes


EPITÁFIO
(Gabriela Maria)

Aqui uma artista jazz.

Publicado por Gabriela Maria às 5:38 PM

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{Sexta-feira, Abril 04, 2008}

 


BRAVAMENTE
(Gabriela Maria)

Disse Nietzsche:
Mais vale a inimizade de um bloco inteiro
que uma amizade feita de pedaços colados!


Discordo.
Construir mosaicos é uma virtuosa
e desafiadora iniciativa de arte.

Publicado por Gabriela Maria às 7:13 PM

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{Quarta-feira, Abril 02, 2008}

 


MUSICALIZAÇÃO
(Gabriela Maria)

A brincadeira favorita
da minha cadelinha
é o diálogo exaltado.

Eu a convido, batendo forte o pé.
Ela sobe no sofá, fica incitada
e começa a se expressar:
ela insurge de lá, eu respondo de cá.

E assim
já sei latir em vários tons.

Publicado por Gabriela Maria às 9:15 PM

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{Terça-feira, Março 11, 2008}

 


VEGET-A-TIVO
(Gabriela Maria)

Este amor,
embora para sempre,
não daqui por diante.

Publicado por Gabriela Maria às 10:14 AM

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{Domingo, Dezembro 02, 2007}

 


A PORTA
(Gabriela Maria)

A madeira sente que
cada mudança de estação
traz ou leva consigo um prego.

A cada prego que vai
seu respectivo locus fica.

É cômodo e fácil,
pois menos doloroso e dolorido,
encarregar o Tempo dos pregos
e dos buraquinhos deixados pelos pregos.

Difícil mesmo é reparar a Porta
sabendo que outros pregos
hão de vir e ir.

Porque as estações continuam mudando.

Só que o Tempo não resolve
nem pregos, tampouco buracos:
o Tempo habitua a Porta
ao ir e vir das estações,
à dança ferrenha e inevitável dos pregos.

A Porta fica, aparentemente,
menos dolorida, mais resistente,
porém não menos marcada:
buraquinhos aumentam em quantidade,
aumenta a reincidência de pregos nos mesmos buracos.

Mais habituação, mais resistência.

Chega a hora em que,
de tantos buracos,
a Porta de madeira
- habituada e tão resistente -
desaparece.

Sem reparos,
sem enfrentamento e sem recomeços,
a Porta nem teve tempo pra se dar conta
de que o Tempo nada resolve.

No fim das contas, o Tempo some com a Porta.
No fim das contas, o Tempo consome a Porta.

Quem é o que sente,
quando não sente,
deixa de ser.

Publicado por Gabriela Maria às 9:28 PM

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{Sábado, Dezembro 01, 2007}

 


CLAUSURA
(Gabriela Maria)

De alguma maneira
meu coração vai bem
- em paz - assim, só.
Trancado dentro de mim.

Publicado por Gabriela Maria às 8:02 PM

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{Terça-feira, Novembro 27, 2007}

 


SOL
(Gabriela Maria)

é por você que escrevo

você que pula, corre, sorri
e brinca, briga, pede arrego
pede colo, comida, canção

você que se esconde, brilha, mostra
encontra, encanta, apreende

você que ama, é amor, saber
sutileza, ingenuidade, coragem

você amizade eterna
incrível lembrança
carinhosa presença

é pra você que escrevo

Publicado por Gabriela Maria às 7:36 PM

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RENASCER
(Gabriela Maria)

toda vida
é nova
toda hora
é linda
todo jeito
é sábio
todo sangue
é toda vida
toda hora
todo jeito
nova
linda
sábia

Publicado por Gabriela Maria às 7:25 PM

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{Sábado, Novembro 24, 2007}

 


VENENOSA
(Gabriela Maria)

Falo de ódio por não ter alcançado ainda
a serenidade do desprezo.

Ódio porque, por seu egoísmo,
sofri mais do que o necessário.
E não sai daqui a vontade
de que você sinta, ao menos,
o equivalente,
se é que se pode estimar.

Mas lembre-se:
só falo de ódio
por não ter alcançado
ainda
a serenidade do desprezo.

Portanto,
não espere um próximo verso.

Publicado por Gabriela Maria às 11:36 PM

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{Sábado, Novembro 10, 2007}

 


CANETAS
(Gabriela Maria)

Todas as canetas conspiram entre si
e sempre param de funcionar
quando mais se precisa delas.

Eis que Marina apresenta-me
as canetas mais fiéis que já conheci.

Tão macias e leves,
elas patinam, solidárias, poesia no papel.

Impressionam-me as tristeza,
misantropia, lealdade e obstinação,
ainda que falhas,
de algumas canetas.

Publicado por Gabriela Maria às 7:01 PM

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{Quinta-feira, Novembro 08, 2007}

 


O QUE É?
(Gabriela Maria)

É que deve haver um nome que ainda não disseram. Não disseram porque não conheceram. Eu procurei, por muito tempo, por todo lado, explicações sobre amor, paixão, amizade, fraternidade. Mas isto que existe aqui desmente todos os poetas e todos os dicionários. E engana todos os sentidos com uma verdade tão pura que me emociona. É cheio e nos preenche de você e de mim. É, talvez, um abraço implícito e eterno de dois espíritos que se esquentam, quando tudo esfria, e se secam em transpiração mútua. É um conceito que ainda não escreveram. Um nome que não conseguiram inventar. Porque só nós conhecemos. E dispensa explicações. Porque só a nós interessa e, em silêncio, já entendemos, com invejável perfeição. É este abraço assim - maciço e poroso, livre em seus mais fortes elos. É quase pornô e, mesmo assim, de imensurável pureza. Nem mais, nem menos. É transcendental e é daqui. É o que é: somos nós.

Publicado por Gabriela Maria às 10:52 AM

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{Sábado, Novembro 03, 2007}

 


VALEU
(Gabriela Maria)

até seu cheiro eu senti
e vi seu olho brilhar
degustei seu sorriso
ouvi sua respiração

mas tive de abrir os olhos
e você não estava mais lá

o bom é que você esteve
e você sempre aparece

apareça sempre

Publicado por Gabriela Maria às 2:56 AM

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{Quarta-feira, Outubro 24, 2007}

 


PEQUENO CONTO
(Gabriela Maria)

Maria orou para que se sentisse menos sozinha. Chorou partidas justas, obtusas, doídas. Maria pediu a Deus que lhe desse forças para continuar acreditando no próximo, mesmo que, a duras penas, tivesse de crescer. E Maria pediu, com vontade, para náo sentir tanto medo.

Era tudo o que ela queria: coragem, fé e companhia. Precisamente nesta ordem.

E Deus lhe mostrou um poema.

Publicado por Gabriela Maria às 1:12 AM

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ALTERNATIVA
(Gabriela Maria)

Meu espírito se apaixona,
ambulante,
por uns homens lindos e puros...

Ele vai e volta,
e ama, fulgás,
esses meninos incertos...

Espiralando,
de galho em galho,
porque no chão não se sente bem,
meu espírito vai criando asas...

E um dia ele há de voar.

Publicado por Gabriela Maria às 1:06 AM

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{Segunda-feira, Outubro 22, 2007}

 


DADIVOSA
(Gabriela Maria)

Deus, peço-te que compre, então, os meus versos
porque recuso-me a equivalê-los de valor entre os homens.

E me subsidie, assim, a viver de poesia.

Publicado por Gabriela Maria às 12:42 PM

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{Domingo, Outubro 21, 2007}

 


Se eu pudesse, guardava você bem escondido, numa caixinha... e não deixava nada nesse mundo lhe aborrecer, entristecer, desesperar. Não deixava nada de ruim atingir você. Abraçava-lhe forte e não soltava mais. Até a gente pôr tudo pra fora com choro, risada e suspiro... e gastava toda essa inquietação nossa com piadas, amizade, sexo e rock n’ roll.

Se eu pudesse, lhe batia até não sentir mais vontade de bater. Até você parar com essa coisa de se agredir achando que vai agredir o resto do mundo. O resto do mundo não se agride, não; só esta parte pequenina minha, que nessas horas queria não existir. Se eu pudesse, você não me provocava nem mais ódio, nem amor, nem desprezo, nem preocupação. Se dependesse de mim, nada disso seria tão puro, e eu não lhe desejava o melhor do mundo que, Deus sabe, você merece, mesmo insistindo em ter o mínimo do mínimo. Se eu pudesse, contaminava essa pureza do que sinto com um monte de pretensões, e ciúme e sentimento de posse e egoísmo e essa coisa toda que o mundo aprende a sentir pelo resto do mundo, o resto da vida.

Se eu tivesse dinheiro, e se dinheiro comprasse, eu lhe comprava uns óculos com lentes mágicas de vida, pra você enxergar, aceitar e se importar com o que realmente importa. E se eu tivesse força, lhe obrigava a usar esses óculos e a só olhar pra frente e a seguir comigo nestes caminhos longos e estreitos, em vez desses atalhos largos, de última hora, tão costumeiros, que nunca dão em lugar nenhum. Porque sozinha tambem não é fácil.

E tirava uma foto sua com a minha imaginação, fazia um pôster pra você carregar na carteira e se olhar toda hora, até acreditar nessa beleza que você sempre recusa. E depois disso tudo, eu não precisava ver você nunca mais, se isso me desse certeza de que tudo ficaria feliz para sempre. Se eu conseguisse, salvava sua vida com versos, como tenho tentado, duramente, salvar a minha própria. E me teletransportava praí, obrigava você a ler até este desabafo acabar, porque sinto que a culpa disso tudo é toda nossa.

Se eu pudesse, você já era feliz. Mas sò o que eu posso é tentar ser. Todo o resto é com você.

E se ainda tem alguém aí, avise que eu ainda estou aqui.

Publicado por Gabriela Maria às 9:26 PM

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{Quinta-feira, Outubro 18, 2007}

 


VOCÊ MERECEU
(Gabriela Maria)

Sofra sozinho
Fique em silêncio
Nem um sussurro
Pague o seu preço

Só quando cresci
Foi que percebi
De nada adiantou
Emprestar o ombro

Em vez de chorar
E se abastecer
Zombou do meu sim
Me fez soluçar
Só fugiu de mim

Agora nem vem
Lamente ao relento
E ouça de longe
Me veja feliz
Dançar e cantar
Música que eu fiz

Dá o fora daqui
Vá viver sem medo
Se, o que conseguir
Já não é segredo
Ser tão triste assim

Sofra sozinho
Agüente calado
Nada de ombro
Fuja de mim
Lamente ao relento
Vá e viva sem medo

Dá o fora daqui
Suma de mim
Em suma, é o fim
Você mereceu.

Publicado por Gabriela Maria às 10:20 PM

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{Terça-feira, Outubro 16, 2007}

 


COMO DEVE SER
(Gabriela Maria)

Ainda que os seus olhos tirassem fotos,
não apreenderiam, sozinhos,
a imagem que realmente importa.
Essa só seu pensamento tem.

E agora, bem ou mal,
sem photoshop.

Publicado por Gabriela Maria às 12:45 AM

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{Quinta-feira, Outubro 11, 2007}

 


PROPOSTA INDECENTE
(Gabriela Maria)

Mário Quintana e você
carregam o mesmo signo.

Isso deve explicar nos entendermos tão bem.
- Ele e eu, você e eu.

Entenda-se, como eu, com ele.
E formemos o triângulo.

Publicado por Gabriela Maria às 2:00 AM

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{Terça-feira, Outubro 02, 2007}

 


INSONE
(Gabriela Maria)

Hoje não escrevi nenhum poema,
não cantei nenhuma música
nem ri de qualquer piada.
Só precisei e quis chorar, chorar e dormir.

Estou cercada de ausências
que eu mesma criei e as tenho mantido,
conscientemente, alimentadas.

Tudo tem parecido vazio, sem sentido, automático.

Nem me empolgam mais os ultimos capítulos da novela
nem os romances mais clássicos dos filmes.
Porque o amor, daquele jeitinho, recíproco, feliz, complementar
- esse amor, me parece, não existe!
Não acredito nem quero mais acreditar.

Talvez a solução seja mesmo me esvaziar,
desprover-me de sentido, automatizar.
Sentir é algo que já não cabe nestes mundos.
Nem aqui dentro nem fora.

O pecado da cabeça que pensa,
do coração que arde, do espírito que se amotina.

Publicado por Gabriela Maria às 4:35 PM

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{Sexta-feira, Setembro 28, 2007}

 


VADIA
(Gabriela Maria)

Vá por mim:
as pessoas fingem,
todo o tempo,
que são puritanas.

Oh! E que escândalo não ser!

Se eu finjo? Claro que sim!
O tempo todo que não sou.
Meu negócio é subverter.

Trabalho vão.
No final das contas
a gente também é o que dissimula.

Duvida, pois, dos altares.
É tudo conspiração.

Publicado por Gabriela Maria às 11:29 PM

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{Quarta-feira, Setembro 26, 2007}

 


SIGA
(Gabriela Maria)

Já não desenho seu rosto
Nem falo mais o seu nome
Descanto aquelas canções
Calei o amor que não foi

Só não me esqueço do que nunca disse
Dos seus poros que eu decorei
Daquele frenesi doido que tomou meu corpo
Quando seus olhos brilharam pros meus

Nem me atrevo a querer tudo de novo
Porque não há, neste mundo, nada mais dolorido e medroso
Do que um coração calado, des(en)cantado
Que, apesar de drenado, não conseguiu esquecer.

Publicado por Gabriela Maria às 7:27 PM

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{Terça-feira, Setembro 25, 2007}

 


OLHO D'ÁGUA
(Gabriela Maria)

Eu não consigo entender
por que nos parecem aos outros
insuportáveis nossas próprias paixões
se o que vemos é puro brilho
eu nos seus, você nos meus olhos.

O que vemos é clareza
é transparência corrente
é o dom "bissexto" de sentir muito
de sofrer pra sempre - felizes
por sabermos intuitivamente
que toda paixão que é brilho
vai, pra sempre, a pena valer.

Publicado por Gabriela Maria às 8:03 PM

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{Domingo, Setembro 23, 2007}

 


DO ESTILO
(Gabriela Maria)

Crio vida.
Vivo poesia.

Publicado por Gabriela Maria às 3:44 AM

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{Quarta-feira, Setembro 19, 2007}

 


TRIBUTO
(Gabriela Maria)

Dizem que papel de pai e mãe
É educar com rigidez e disciplina
Mas que a parte do vovô e da vovó
É desfazer o que o pai e a mãe ensinam.

Na verdade vô e vó são como estrelas
Que fazem nossa vida mais bonita
Nos protegem e defendem das palmadas
Perto deles a alegria é infinita.

Aos domingos, a família reunida,
O vovô e a vovó contando histórias.
São momentos simples e importantes como esses
Que guardamos sempre vivos na memória.

Que os digam os netos encantados
Com a força da vovó e do vovô.
São exemplos de experiência e sabedoria,
Que preenchem nosso mundo com amor.

É bom que aprendamos mais com eles
Sobre as coisas que tão bem eles conhecem,
Já que de seres tão especiais e abençoados
Os anjos do Senhor nunca se esquecem.

Publicado por Gabriela Maria às 11:21 AM

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{Sábado, Setembro 15, 2007}

 


PEDIDO
(Gabriela Maria)

Deita no meu colo
e faz dele uma cúpula
cheia de luzes, música e festa.

Ou faz dele um sonho bom
e sorri de olhos fechados
como quem não conhece lá fora.

Por mim.

Finge que posso sempre
fazer de ti a pessoa mais feliz do mundo.

Ou pelo menos finge, por mim,
que podes pra sempre ser feliz.

Porque preciso tanto ser feliz.
Por ti.

Publicado por Gabriela Maria às 1:10 AM

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{Segunda-feira, Setembro 10, 2007}

 


CANTADA
(Gabriela Maria)

Moço do Sax

Assopra
e faz-me gritar.

Toca a afonia surda
desta vida minha.

Publicado por Gabriela Maria às 10:20 PM

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{Domingo, Agosto 26, 2007}

 


CADÊ?
(Gabriela Maria)

Tão difícil quanto amar
é se deixar ser amado.

Permitir-se cuidado
daquele que só bem nos quer.

E confiar incondicionalmente.

O verdadeiro amor não sente medo
de dar e receber.

É desse amor que o mundo carece.
Sente?

Publicado por Gabriela Maria às 3:21 PM

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{Segunda-feira, Agosto 20, 2007}

 


FATOS
(Gabriela Maria)

Conquistaste minha confiança
em pouquíssimo tempo.

E, apesar de tanto esforço, não é que,
enfim, a tenhas perdido.

Ganhaste sim, o meu medo.
Meu medo do teu medo.

E agora?!
Agora já nem sei mais...

Publicado por Gabriela Maria às 6:23 PM

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{Quinta-feira, Agosto 16, 2007}

 

DEMONSTRATIVA
(Gabriela Maria)

Creio sermos anjos.

Nesta
Nessa
Naquela
Em toda
Por toda
Vida.

Anjos com sexo.

Publicado por Gabriela Maria às 1:46 PM

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{Terça-feira, Agosto 14, 2007}

 


MEIO MINUTO
(Gabriela Maria)

Tempo-todo
tempo-passa
passo-pisa
piso-pára
pára-tudo
todo-tempo
tudo-passa
tudo-pisa
tudo-pira
pira-passo
passa-tempo
tempo-todo
tempo-passa
tempo-pira
tempo-pára.

Publicado por Gabriela Maria às 10:03 PM

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{Segunda-feira, Agosto 13, 2007}

 


GOZO
(Gabriela Maria)

A tristeza tem parido uma satisfação maternal:
estar triste faz-me escrever poesia
e cada poema que encerro é um filho gerado
- para mim e para o mundo.

Estar triste nem é tão ruim assim:
pensando bem, parece-me o sexo
tanta força orgástica a fim da compulsiva (re)produção.

Publicado por Gabriela Maria às 2:16 AM

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COMUNICAÇÃO
(Gabriela Maria)

Converso com alguns poetas
como converso com Deus.

Todos amigos e cúmplices
numa lírica equivalência emocional.

Deus fala-me através da poesia
que é o próprio mundo transcrito
de maneira cármica e divina pelos poetas.

Publicado por Gabriela Maria às 2:15 AM

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CARTESIANA
(Gabriela Maria)

Nossa história dispensa demonstrações gráficas
de que estamos nas cristas e vales
das parábolas um do outro.

Já reparou?

Publicado por Gabriela Maria às 2:06 AM

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